Volume 3
NESTA EDIÇÃO
Perspectivas Acadêmicas
Professora Zeenath Khan,
Universidade de Wollongong
Dubai, EAU
Destaque de Liderança
Professora Nathalie
Martial-Braz,
Universidade Sorbonne Abu
Dhabi, EAU
Voz do Aluno
Salima Almuete Loutfi,
Universidade de Abu
Dhabi, EAU
Tendências
Dr. Muhammad
Usman Tariq,
Universidade de Abu
Dhabi, EAU
Impactos transformadores
e possibilidades
inimagináveis
Março 2025
Por que o Plurilinguismo é Importante:
Multilingual Global Exclusive
Dra. Natalia Brussard,
Universidade Simon Fraser, Canadá
Tópicos Especiais
Conteúdo
Editorial
Nota da Editora-Chefe
Laura Vasquez Bass
Tópicos Especiais
Mais idiomas, mais possibilidades: sua
vida, amplificada
Dra. Natalia Bussard, MSc.
Líder dos Programas de Educação
Cooperativa em Ciências, Meio
Ambiente e Ciências da Saúde,
Aprendizado Integrado ao Trabalho
Universidade Simon Fraser, Canadá
Perspectivas
Acadêmicas
Aproveitando a IA Generativa para
aprendizagem ética e Integridade
acadêmica
Professora Zeenath Reza Khan
Universidade de Wollongong Dubai,
EAU
Presidente Fundadora, Centro para
Integridade Acadêmica ENAI WG
nos EAU
Destaque
de Liderança
“Nunca deixei de ser professora”:
Equilibrando os papéis de
educadora, jurista e chanceler da
Universidade Sorbonne Abu Dhabi,
EAU
Uma Entrevista com a Professora
Nathalie Martial-Braz
Voz do Aluno
Transformando a saúde para um
futuro sustentável através da
minha jornada doutoral
Salima Almuete Loutfi
Doutoranda em Administração de
Empresas
Universidade de Abu Dhabi, EAU
Gerente de Felicidade do Cliente
Hospital Geral Sheikh Khalifa,
Emirado de Umm Al Quwain
Tendências
Aprimorando o engajamento
estudantil na Universidade de Abu
Dhabi: Uma iniciativa
transformadora
Dr. Muhammad Usman Tariq
Professor Associado de Gestão da
Qualidade
Líder de Equipe – Advance HE
Change Academy
Universidade de Abu Dhabi, EAU
04
06
10
14
20
24
Descubra como o
conhecimento de
múltiplos idiomas
pode expandir sua
mente e aumentar
suas habilidades
de empatia
08
18
26
Como de costume,
esperamos que você
ache a ampla
variedade de temas
desta edição tão
agradável quanto
inspiradora
Aqueles que acompanham a UniNewsletter desde
seu lançamento no ano passado conhecem nosso
compromisso em oferecer conteúdo aos nossos
leitores no idioma de sua preferência. Desde a
concepção da revista, o multilinguismo sempre foi
entendido por todos os envolvidos como um
princípio fundamental do nosso DNA enquanto
publicação. Você pode imaginar, então, minha
satisfação ao ter a oportunidade de conversar com
a Dra. Natalia Bussard, MSc., Líder do Programa de
Ciência, Meio Ambiente e Ciências da Saúde na
Universidade Simon Fraser, sobre sua pesquisa em
plurilinguismo.
Diferentemente do multilinguismo, uma variedade
de idiomas falados, o plurilinguismo diz respeito
mais precisamente ao "repertório individual de
vários idiomas que uma pessoa pode usar para
autoexpressão
ou
comunicação",
como
ela
descreve.
A
necessidade
dessa
distinção—os
diversos significados emocionais e contextuais que
diferenciam os idiomas dentro do repertório de um
falante—e o que podemos aprender com isso são o
foco do seu artigo, que abre esta edição na seção
Tópicos Especiais. Dado nosso compromisso com
esse tema, o título desta edição vem da explicação
da Dra. Natalia sobre a relevância do plurilinguismo.
Outro tema importante que tem dominado as
discussões no ensino superior desde 2023 é
abordado pela Dra. Zeenath Reza Khan, da
Universidade de Wollongong Dubai, EAU, que
também é a presidente fundadora do Centro para
Integridade Acadêmica ENAI WG nos EAU. O artigo
da professora Zeenath, "Aproveitando a IA
Laura Vasquez Bass
Nota da Editora-chefe
“
“
EDITORIAL
Bem-vindos
à UniNewsletter
| Por que o plurilinguismo é importante
04
Generativa para aprendizagem ética e integridade
acadêmica", será especialmente relevante para
aqueles que compreendem o contexto do ensino
durante a pandemia da COVID-19 e o impacto da
ascensão do ChatGPT. Nesse cenário, ela destaca
os esforços dos EAU para integrar a IA na educação
de maneira ética, focando no aprimoramento dos
educadores por meio de iniciativas como a “IA na
minha sala de aula – Programa de incubação de
professores”, além de abordar as implicações
políticas através da iniciativa Green Paper. A
professora Zeenath enfatiza que a IA, quando
adotada
com
responsabilidade
e
apoio
institucional, pode fortalecer a aprendizagem e a
integridade
acadêmica,
ao
invés
de
comprometê-las.
Na seção Destaque de Liderança, trazemos uma
entrevista inspiradora com a Professora Nathalie
Martial-Braz, Chanceler da Universidade Sorbonne
Abu Dhabi, EAU. A professora Nathalie compartilha
sua trajetória acadêmica, desde sua tese de
doutorado em Direito da Propriedade Intelectual na
França até sua nomeação como Chanceler em
2023. Especialista em direito financeiro, propriedade
intelectual e direito digital, ela tem desempenhado
um papel fundamental na adaptação da educação
jurídica aos desafios da IA, da cibersegurança e da
transformação digital. Ela destaca a importância
da colaboração interdisciplinar, a necessidade de
adaptar currículos às tecnologias emergentes e
defende um estilo de liderança que prioriza o
trabalho em equipe em vez de uma estrutura
hierárquica rígida. Sob sua orientação, a SUAD está
fortalecendo
suas
iniciativas
de
pesquisa,
adotando
abordagens
transdisciplinares
e
preparando seus estudantes para enfrentar os
desafios de um mundo globalizado e dinâmico.
Temos o prazer de apresentar Salima Almuete
Loutfi, doutoranda em Administração de Empresas
na Universidade de Abu Dhabi (ADU), EAU, como a
autora da seção Voz do Aluno desta edição. Em seu
artigo, ela analisa como a telemedicina está
transformando
o
setor
de
saúde
nos
EAU,
melhorando a acessibilidade, a eficiência e a
sustentabilidade. Como estudante de DBA e
também gestora de saúde, Salima explora o papel
da telemedicina na melhoria dos resultados dos
pacientes e no apoio às metas de sustentabilidade
dos EAU. Sua pesquisa, orientada por professores da
ADU, já foi reconhecida em fóruns nacionais e
contribui para a integração da telemedicina em
modelos sustentáveis de saúde. Com o foco
crescente dos EAU em sistemas inteligentes de
saúde, são essenciais pesquisas contínuas para
maximizar o impacto da telemedicina e impulsionar
a inovação no setor.
Fechando esta edição, na seção Tendências, temos
a participação de mais um talento da ADU: o Dr.
Muhammad Usman Tariq, Professor Associado de
Gestão
da
Qualidade.
Ele
compartilha
o
envolvimento da ADU com a organização Change
Academy, sediada no Reino Unido, um projeto
focado no engajamento estudantil, e seu papel
como líder de equipe nesta iniciativa. Diante de
uma tendência preocupante e comum no ensino
superior—o desengajamento dos estudantes—Dr.
Muhammad detalha a abordagem proativa e
colaborativa que a ADU está adotando para
combater
esse
problema,
alinhada
às
recomendações
da
Change
Academy.
Ele
apresenta diversas estratégias para solucionar a
questão e sugere metas concretas para futuras
melhorias, oferecendo uma leitura valiosa tanto
para professores quanto para gestores do ensino
superior.
Como de costume, esperamos que você ache a
ampla variedade de temas desta edição tão
agradável quanto inspiradora.
Por que o plurilinguismo é importante | 05
Mais idiomas, mais
possibilidades:
TÓPICOS ESPECIAIS
Sua vida, amplificada
Línguas e culturas sempre me interessaram e
moldaram quem eu sou. Começarei compar-
tilhando minha experiência com diferentes
línguas e culturas e, em seguida, explicarei
como o multilinguismo — ou, como prefiro
chamar, o plurilinguismo — pode beneficiá-lo.
No diversificado campo da pesquisa sobre
línguas, estudiosos europeus e norte-ameri-
canos frequentemente utilizam termos difer-
entes para descrever conceitos semelhantes;
no entanto, existem algumas distinções
significativas. Como observa Jasone Cenoz,
professora de Educação na Universidade do
País Basco, na Espanha, pesquisadores euro-
peus costumam usar o termo "plurilinguismo",
enquanto seus colegas norte-americanos
preferem "multilinguismo". Ela destaca que o
multilinguismo domina o cenário linguístico
global, com aproximadamente 7.000 línguas
faladas no mundo em 2025. A maioria dos
falantes dessas línguas está concentrada na
Ásia, seguida pela África e, depois, pela
Austrália e Oceania. A globalização tem
aumentado significativamente o valor do
multilinguismo, promovendo a diversidade
linguística e a comunicação intercultural. Por
outro lado, o plurilinguismo refere-se ao
repertório individual de várias línguas que
uma pessoa pode usar para se expressar ou
se comunicar. Um indivíduo pode ter aprendi-
do essas línguas simultaneamente desde o
nascimento ou adquirido ao longo de difer-
entes fases de sua vida.
Em minha pesquisa sobre a interseção entre
linguística aplicada e aprendizagem trans-
formadora, utilizo o termo “plurilinguismo”
para reconhecer os diferentes níveis de profi-
ciência que os indivíduos possuem em diver-
sas línguas e sua capacidade de alternar
entre elas conforme necessário. O plurilin-
guismo considera que as línguas dentro do
repertório
linguístico
de
um
indivíduo
funcionam como uma rede interconectada,
em vez de sistemas separados e isolados.
Plurilinguismo: Abrindo portas para opor-
tunidades inimagináveis
Enquanto eu crescia na Tchecoslováquia
socialista, fui exposta simultaneamente a
duas línguas: o tcheco, por meio da televisão
e do rádio, além das visitas ocasionais de
06
Dra. Natalia Bussard, MSc.
Líder dos Programas de Educação Cooperativa em Ciências, Meio Ambiente e Ciências
da Saúde, Aprendizado Integrado ao Trabalho
Universidade Simon Fraser, Canadá
| Por que o plurilinguismo é importante
Dra. Natalia Bussard, MSc.
Universidade Simon Fraser, Canadá
O
plurilinguismo
reconhece que
os idiomas
dentro do
repertório
linguístico de
um indivíduo
funcionam
como uma rede
interconectada
, em vez de
sistemas
separados e
isolados.
“
“
Por que o plurilinguismo é importante | 07
familiares de Praga e Plzeň, e o eslovaco, que era a
língua do cotidiano familiar. A Tchecoslováquia,
que se dividiu para formar a República Tcheca e a
Eslováquia em 1993, fazia fronteira com a Polônia
ao nordeste, a Alemanha ao oeste, a Áustria ao sul
e a Eslováquia ao leste. Assim, viver lá proporciona-
va exposição ao polonês, alemão, alemão austría-
co e eslovaco. Apesar das oportunidades limitadas
para aprender línguas além do russo na escola
primária, o eslovaco, o tcheco e o russo serviram
como catalisadores para minha curiosidade em
linguística e despertaram meu desejo de aprender
novas línguas no futuro.
Ao concluir o ensino fundamental, uma professora
voluntária canadense de língua inglesa, carismáti-
ca e entusiasmada, despertou minha paixão pelo
inglês. Seu sotaque hipnotizante abriu meus olhos
para um mundo de possibilidades linguísticas.
Avançando para a vida pós-universitária, me vi
imersa na vibrante cultura espanhola em Múrcia.
Lá, mergulhei de cabeça no aprendizado do
espanhol, enquanto compartilhava minha paixão
pelo inglês como professora no Colégio La Milagro-
sa, na pitoresca cidade de Totana, na Andaluzia.
Essa experiência bilíngue não apenas ampliou
meus horizontes, mas também reforçou o poder da
imersão cultural na aquisição de idiomas.
Ao retornar à Eslováquia, aproveitei minhas
experiências diversas para atuar como gerente de
treinamento no setor bancário, professora de
inglês e eslovaco no Canadian Bilingual Institute,
jornalista na revista Business Slovakia e tradutora e
intérprete em conferências para o governo e
organizações sem fins lucrativos. Esses papéis
multifacetados me permitiram colaborar com
profissionais e estudantes de diferentes áreas e
fortaleceram minha aspiração de explorar a vida
como expatriada no Canadá.
Minha experiência no Canadá inclui funções
administrativas e acadêmicas na Universidade da
Columbia Britânica (UBC) e na Universidade Simon
Fraser (SFU). Na SFU, lidero os Programas de
Educação Cooperativa em Ciências, Meio Ambi-
ente e Ciências da Saúde, onde colaboro com uma
equipe de coordenadores e consultores especial-
izados para facilitar o intercâmbio de conhecimen-
to entre a academia e parceiros da indústria. Na
Faculdade de Educação da UBC, conduzi minha
pesquisa em Liderança e Política Educacional, com
foco em como o conhecimento do plurilinguismo
transforma identidades, relações interpessoais e
perspectivas de mundo.
Como o fato de abraçar múltiplos idiomas enrique-
ceu minha vida? Antes mesmo de mergulhar na
pesquisa, percebi algumas mudanças notáveis em
mim. Minha perseverança se fortaleceu e minha
mente se abriu, acolhendo uma variedade de
perspectivas que antes eu não havia considerado.
Descobri um novo entusiasmo para ouvir os outros,
realmente absorvendo suas histórias e experiên-
cias. Isso despertou em mim uma curiosidade
maior para aprender mais sobre as pessoas ao
meu redor, suas culturas e as lentes únicas através
das quais elas enxergam o mundo.
Pesquisa: Por que o Plurilinguismo importa (e
como ele pode mudar tudo)
Com base no trabalho de Enrica Piccardo, professo-
ra de Educação em Línguas e Literaturas na Univer-
sidade de Toronto, Canadá, observei nos partici-
pantes da minha pesquisa um aumento da criativi-
dade.
Algumas
práticas
plurilíngues
criativas
incluíram: identificar semelhanças nos ritmos do
espanhol e adaptá-los para outros dialetos; recitar
frases de um idioma em outro como mecanismo de
tranquilização em momentos difíceis; interagir com
dicionários para aprimorar a capacidade de trans-
mitir mensagens de forma mais eficaz; e alternar
entre idiomas dependendo de qual aspecto de sua
personalidade desejavam destacar para um públi-
co específico.
Em consonância com a pesquisa de Philip Bamber,
Professor de Educação na Liverpool Hope University,
no Reino Unido, meu estudo mostrou que o plurilin-
guismo pode levar as pessoas a se tornarem mais
empáticas, abertas e receptivas às visões dos
outros. Experiências na infância de serem silencia-
das ou ridicularizadas ao falar podem ser traumáti-
08 | Por que o plurilinguismo é importante
cas, especialmente em sua língua dominante. No
entanto, essas experiências também podem atuar
como catalisadoras para o crescimento pessoal e a
resiliência.
Quando
transformadas,
interações
negativas podem resultar em desfechos positivos,
promovendo maior tolerância, aceitação e abertura
ao próximo. A adversidade frequentemente cultiva a
empatia e uma compreensão mais profunda da
diversidade linguística e cultural. Enfrentar os
desafios de aprender e usar múltiplas línguas pode
gerar uma valorização genuína da comunicação
eficaz e desenvolver empatia pelas dificuldades
linguísticas dos outros.
Uma jornada plurilíngue pode ampliar a com-
preensão sobre culturas diversas e despertar uma
paixão pelo aprendizado contínuo, expandindo os
horizontes cognitivos e a perspectiva global.
Com base em pesquisas extensivas e em minha
própria experiência, posso afirmar com confiança
que aprender múltiplos idiomas pode ter um efeito
transformador em sua vida. Esse processo pode
fortalecer sua perseverança, autoconfiança e
criatividade. Além disso, frequentemente promove
uma postura menos julgadora e mais compassiva
em relação aos outros, aprimorando a empatia e
as habilidades de escuta. Esses benefícios
combinados levam, inevitavelmente, a uma
melhora na construção de relacionamentos, uma
competência essencial para o sucesso em nossa
sociedade global cada vez mais complexa e
interconectada. Por isso, encorajo a todos a
expandirem seus horizontes aprendendo um novo
idioma, permitindo-se enxergar o mundo sob pelo
menos uma outra perspectiva.
“Uma jornada
plurilíngue pode
aprimorar a
compreensão de
diversas culturas
e despertar uma
paixão pelo
aprendizado ao
longo da vida,
expandindo
continuamente os
horizontes
cognitivos e a
perspectiva
global.”
Por que o plurilinguismo é importante | 09
Dado o que parece ser nosso romance com
seres artificialmente inteligentes, amplamente
governado pela ficção científica e pelas históri-
as de filmes de Hollywood maiores que a vida, é
fascinante ver como colegas ao redor do
mundo têm abordado a IA. As conversas vão
desde a rejeição total até o otimismo cauteloso,
algumas governadas pelo medo, outras pela
curiosidade; mas o que permanece claro é que
a IA veio para ficar. Como acadêmica apaix-
onada por integridade e educação ética, minha
pesquisa tem se concentrado em aproveitar o
poder da IA enquanto se mantém o rigor ped-
agógico e ético. No Centro para Integridade
Acadêmica ENAI WG nos EAU, temos liderado
iniciativas que mudam a conversa de restrição
para adoção responsável, garantindo que tanto
educadores quanto alunos compreendam o
valor da alfabetização em IA.
PERSPECTIVAS ACADÊMICAS
Leveraging Generative
AI for Ethical Learning
and Academic Integrity
Professora Zeenath Reza Khan
Universidade de Wollongong Dubai, EAU
Presidente Fundadora, Centro para Integridade Acadêmica ENAI WG, EAU
10 | Por que o plurilinguismo é importante
Capacitação de educadores: A IA na minha sala
de aula – Programa de incubação de profes-
sores
Um dos principais desafios na integração da IA
nas salas de aula é garantir que os educadores
estejam preparados para orientar os alunos no
uso ético da IA. Se a experiência de ensino remoto
emergencial durante a pandemia nos ensinou
algo, foi que os papéis dos professores se
tornaram cada vez mais exigentes e suas habili-
dades precisaram se adaptar rapidamente. Não
estávamos preparados, faltava-nos tempo ou
capacidade para nos equiparmos, e ainda assim,
da noite para o dia, tornou-se imprescindível que
dominássemos novas tecnologias, reformulás-
semos nossos cursos e entregássemos aulas sem
interrupções para garantir que o aprendizado dos
alunos não fosse prejudicado. Qual foi o impacto
desse período tumultuado? Globalmente, a
experiência revelou lacunas na preparação dos
educadores e levantou questões sobre as expec-
tativas
impostas
aos
professores.
Também
deixou claro que o investimento no desenvolvi-
mento de docentes seria fundamental.
Três anos depois, em 2023, nos encontramos em
outro dilema. Com a ferramenta de geração de
conteúdo da OpenAI, o ChatGPT, ganhando noto-
riedade quase da noite para o dia, a conversa
sobre IA nas salas de aula se tornou onipresente,
dominando todos os espaços acadêmicos.
Novamente, professores e docentes precisaram
se atualizar rapidamente e tentar navegar pela
mudança repentina no diálogo, enquanto ainda
lidavam com suas rotinas exigentes. A IA na
educação já não era uma consideração futura —
era um desafio imediato para todos, especial-
mente
para
os
professores,
que
eram
responsáveis por orientar os alunos em seu uso. À
medida que avançamos em 2025, nossas expec-
tativas continuam altas: devemos nos adaptar,
ajustar e desenvolver rapidamente fluência para
oferecer o melhor suporte aos alunos. No entanto,
a integração sustentável e ética da IA na
educação exige tempo, treinamento e apoio
institucional.
Nesse sentido, sou afortunada por estar nos EAU,
um país com uma visão progressista e ambiciosa
para suas futuras gerações. Desde a estratégia
Education 33 de Dubai, que visa transformar o
ensino tradicional em sala de aula em discussões
dinâmicas e centradas no aluno, até a UAE AI
Strategy 2031, que busca posicionar o país como
líder global em IA ao integrar a inteligência artifi-
cial em setores-chave — o compromisso com a
inovação movida por IA é claro. O mais recente,
UAE AI Seal reforça ainda mais essa visão,
garantindo
que
a
confiabilidade
da
IA
permaneça no centro das conversas nacionais.
Essas iniciativas não se tratam apenas de adotar
a IA, mas de integrá-la de forma responsável e
ética na educação, preparando tanto os alunos
quanto os educadores para um futuro em que a
alfabetização em IA seja fundamental.
Após o AI Retreat em 2024, inspirada pela ênfase
de Sua Alteza Sheikh Hamdan Bin Mohammed na
capacitação de educadores, trabalhei ao lado de
Veena Mulani, da Al Diyafah High School em
Dubai, e com a orientação dos membros do Con-
selho, para lançar o programa A IA na minha sala
de aula – Programa de incubação de professores
no ano passado. Esta iniciativa reuniu 50 profes-
sores em um ambiente de apoio seguro, onde
puderam discutir abertamente, experimentar e
compreender o papel da IA na pedagogia. O
“
À medida que avançamos em 2025,
as expectativas continuam altas:
devemos nos adaptar, ajustar e
desenvolver rapidamente fluência
para oferecer o melhor suporte aos
alunos. No entanto, a integração
sustentável e ética da IA na
educação exige tempo,
treinamento e apoio
institucional.
“
11
Por que o plurilinguismo é importante |
“
programa focou em proporcionar aos educadores
a confiança e as habilidades necessárias para
integrar a IA de forma significativa em suas salas de
aula, garantindo que as discussões sobre IA
permanecessem
fundamentadas
na
ética,
responsabilidade e no sucesso dos alunos.
O programa foi estruturado para promover um
envolvimento prático. Com uma série de sessões
de
treinamento
rápidas
cobrindo
diferentes
conceitos pedagógicos e ferramentas de IA
relevantes, oferecidas por incríveis parceiros da
indústria e acadêmicos de diferentes empresas
iniciantes e instituições de ensino superior, os
professores trabalharam em equipes para desen-
volver propostas de projetos que utilizassem a IA
para aprendizado ético, avaliação e engajamento
em sala de aula. As melhores propostas foram
premiadas com prêmios em dinheiro para financiar
a implementação, garantindo que essas ideias
saíssem das discussões teóricas para aplicações
práticas nas salas de aula. Ambassador School
Sharjah e MSB Private School saíram como vence-
doras, com a GEMS Cambridge International School
Dubai
como
segunda
colocada.
A
iniciativa
demonstrou que, com a orientação correta, a IA
pode ser uma aliada no fomento do pensamento
crítico, da criatividade e da integridade entre os
alunos, em vez de um atalho que pode levar à má
conduta acadêmica.
Uma abordagem orientada por políticas: A inicia-
tiva Green Paper
Além das intervenções em sala de aula, uma das
principais considerações que tivemos foi sobre as
implicações políticas. A partir de uma conversa
casual com o Dr. Stephen Wilkinson, Diretor de
Pesquisa da UOWD, e parceiros da indústria como
parte de um projeto Global Challenges RISE sobre IA
nos Locais de Trabalho, percebemos que precisá-
vamos levar essa discussão para um público mais
amplo. Passamos a maior parte de 2024 desenvol-
vendo um Green Paper tque examina o papel da IA
na educação sob uma perspectiva política. O obje-
tivo era propor questões sobre as oportunidades e
desafios da IA na Educação nos EAU, através da
lente da integridade acadêmica—uma abordagem
que não se baseia exclusivamente na detecção e
punição, mas que levanta questões sobre a
integração da alfabetização em IA, a reformulação
da avaliação e o desenvolvimento de docentes.
Isso se alinhou bem com a pesquisa existente que
enfatiza a necessidade de intervenções políticas
proativas, e não reativas, na ética da IA.
Os debates sobre esse documento e algumas das
questões propostas já começaram a fornecer
maior clareza. Por exemplo, nossas discussões com
as partes interessadas no início deste ano, envol-
vendo
pesquisadores
acadêmicos,
alunos
e
formuladores de políticas, indicaram que uma
abordagem reativa à IA e à má conduta acadêmi-
ca é insustentável. Em vez disso, as instituições
A IA pode ser uma
aliada no fomento
do pensamento
crítico, da
criatividade e da
integridade entre
os alunos, em vez
de um atalho que
pode levar à má
conduta
acadêmica.
“
12 | Por que o plurilinguismo é importante
“Se há uma lição
fundamental em
nosso trabalho, é que
a integridade na
educação não é um
esforço isolado, mas
um processo contínuo,
colaborativo e
holístico.”
devem criar estruturas organizadas que reconheçam
a presença da IA enquanto orientam os alunos para
o uso ético. Isso exige mudanças nas metodologias
de avaliação, afastando-se de avaliações baseadas
na memória para tarefas baseadas em competên-
cias, nas quais a IA é uma ferramenta para um
aprendizado mais profundo, em vez de um meio de
contornar o esforço intelectual. Aqueles de nós que
trabalham extensivamente nesse campo da integri-
dade acadêmica entendem que realmente não
existe uma solução mágica que garanta a segu-
rança das avaliações, mas também sabemos que
isso exige apoio institucional para os membros do
corpo docente, muitos dos quais estão navegando
pelo impacto da IA na educação pela primeira vez.
Essa conversa está sempre em andamento.
Moldando o futuro da integridade nas salas de aula
na era da IA
Se há uma lição fundamental em nosso trabalho, é
que a integridade na educação não é um esforço
isolado, mas um processo contínuo, colaborativo e
holístico. A IA não mina a integridade, nem envolve
fechar os olhos ou enterrar a cabeça na areia como
avestruzes proverbiais. Como escolhemos integrar a
IA na educação determina seu impacto. Nossas
iniciativas destacam a importância de capacitar os
educadores, envolver os alunos em discussões
éticas sobre IA e moldar políticas que equilibrem
inovação com rigor acadêmico.
À medida que avançamos, o desafio não está em
limitar as capacidades da IA, mas em garantir que
as considerações éticas permaneçam centrais em
seu uso na educação. Somente assim poderemos
preparar os alunos, não apenas para o aprendizado
habilitado por IA, mas para um futuro onde a
integridade e a responsabilidade moldam suas
jornadas profissionais e pessoais.
13
Por que o plurilinguismo é importante |
Professora Nathalie Martial-Braz
Chanceler da Universidade Sorbonne Abu Dhabi, EAU
DESTAQUE DE LIDERANÇA
14 | Por que o plurilinguismo é importante
O papel de um
professor titular
em uma
universidade
envolve múltiplas
responsabilidade
s, e não um único
trabalho. Eu
realmente gosto
de ensinar e
valorizo as
relações
formadas com
meus
alunos.
Professora
Nathalie,
estamos
muito
felizes
e
honrados
por
ter
concordado em falar conosco nesta
edição do UniNewsletter. Como é de
costume em nossa seção Destaque de
Liderança,
poderia
começar
nos
guiando pela trajetória de sua carreira
acadêmica,
culminando
em
sua
nomeação
como
Chanceler
da
Universidade
Sorbonne
Abu
Dhabi
(SUAD)?
Iniciei minha carreira concluindo uma
tese de doutorado sobre interesses de
segurança em direitos de propriedade
intelectual em Paris, após obter meu
diploma de bacharel na Universidade de
Bordeaux, no sul da França. Durante
meus estudos de doutorado, lecionei na
Universidade Paris Descartes (Paris V).
Após apresentar minha tese de doutora-
do em 2005, fui nomeada professora
assistente na Universidade de Rennes, no
oeste da França, onde me especializei
em direito digital. Durante esse período,
me preparei para o “Agrégation”, um
diploma necessário para me tornar
professora
titular
na
França.
Fui
nomeada professora titular na Universi-
dade de Franche-Comté (UFC), uma
pequena
universidade
no
leste
da
França. Lá, liderei um programa de
mestrado focado em direito de proprie-
dade intelectual e digitalização.
Mais tarde, fui transferida para Paris,
onde criei um mestrado em direito da
proteção de dados em 2014, colaboran-
do com meu colega, que é o vice-presi-
dente da Autoridade Reguladora France-
sa de Proteção de Dados (CNIL). Contin-
uei minha jornada no direito digital, pub-
licando extensivamente na área.
Em 2021, ingressei na SUAD com a
intenção de trabalhar no Sorbonne
Center for Artificial Intelligence (SCAI) e
na regulação da IA, pois lidero um projeto
de pesquisa sobre regulação de IA desde
2019. Meu objetivo era liderar pesquisas
transdisciplinares com todas as equipes
de diferentes áreas, como ciências
humanas, ciências, direito, em torno da
IA no SCAI. Em 2023, fui nomeada
chanceler da universidade.
O papel de um professor titular em uma
universidade
envolve
múltiplas
responsabilidades, e não um único
trabalho. Eu realmente gosto de ensinar
e valorizo as relações formadas com
meus alunos. Há um momento particu-
larmente gratificante ao ensinar cursos
fundamentais, como direito contratual
para alunos do segundo ano, quando
podemos ver a faísca de compreensão
nos olhos deles — um momento que
significa a capacidade deles de entend-
er o material e aplicá-lo na prática. Além
disso, ensinar no nível de mestrado é
“
“
Professora Nathalie Martial-Braz
Uma entrevista com a
15
“Nunca deixei de ser
professora”
Equilibrando os papéis de educadora,pesquisadora
jurídica e Chanceler da Universidade Sorbonne
Abu Dhabi, EAU
Por que o plurilinguismo é importante |
igualmente emocionante, pois você interage
com alunos altamente motivados. Nesse ambi-
ente, podemos mergulhar profundamente em
tópicos
complexos,
incentivando
reflexão,
análise e debate sobre diversos sistemas de
pensamento. Também aprecio trabalhar com
alunos de doutorado ao longo de vários anos,
pois isso nutre um tipo diferente de relação —
uma que se desenvolve ao longo do tempo. E,
além de ensinar, tenho uma grande paixão por
escrever e pesquisar.
Você é particularmente reconhecida por sua
expertise em direito financeiro, propriedade
intelectual e direito digital. Poderia refletir
sobre como seu histórico específico, formação
e perfil intelectual influenciam a forma como
desempenha o papel de chanceler, bem como
seu estilo de liderança?
Minha especialização em direito financeiro me
ajudou significativamente a desempenhar o
papel de chanceler. Sinto-me à vontade lidando
com contratos, gestão, questões orçamentárias
e problemas organizacionais de uma empresa.
No passado, atuei como conselheira em um
escritório de advocacia, o que me expôs à
gestão de empresas; isso não é uma função
nova, é apenas a primeira vez que a aplico em
um contexto universitário internacional. Além
disso, ao longo de minha carreira, tive a opor-
tunidade de supervisionar diversas estruturas
universitárias, particularmente laboratórios de
pesquisa, o que me permitiu desenvolver uma
compreensão
profunda
dos
mecanismos
administrativos de uma universidade. Minha
expertise em direito provavelmente é minha
maior vantagem nesta posição. Embora minhas
especializações em propriedade intelectual e
direito digital possam não ser diretamente
aplicáveis às minhas atividades diárias como
chanceler, meu envolvimento de longo prazo
com startups e pequenas empresas no setor
digital provavelmente influenciou meu estilo de
liderança. Não me considero uma líder tradi-
cional e autoritária; ao contrário, adoto uma
abordagem mais colaborativa, que vem do meu
histórico de trabalho em um contexto mais
horizontal com diversas pessoas, em vez de uma
estrutura vertical e hierárquica.
Além disso, minha experiência como professora
titular na instituição me proporcionou uma
perspectiva mais ampla e a capacidade de
recuar e gerenciar de forma eficaz. Esse
histórico, juntamente com minha experiência de
longa data na Sorbonne desde 2014 como
professora visitante, me deu uma compreensão
profunda da instituição, o que acredito ser de
grande ajuda no meu papel. Eu prospero na inter-
ação com os alunos e me esforço para promover
um ambiente de trabalho positivo; para mim, o
espírito de comunidade é fundamental. Minha
expertise jurídica permanece sempre presente,
fornecendo o rigor necessário para liderar uma
equipe e tomar decisões estratégicas essenciais
para gerenciar uma instituição dinâmica como a
Universidade Sorbonne Abu Dhabi.
Como mencionamos, sua pesquisa explorou o
direito digital e a proteção de dados. Como você vê
a evolução da educação jurídica para capacitar os
alunos com as habilidades necessárias para uma
era
dominada
pela
IA,
preocupações
com
cibersegurança e transformação digital?
Na minha opinião, é crucial educar a geração jovem
sobre as novas ferramentas, pois a IA será uma
ferramenta cotidiana em seus empregos. Precis-
amos garantir que eles a utilizem de forma adequa-
da, o que inclui educá-los sobre proteção de dados.
Isso é importante não apenas por ser uma regulam-
entação que pode restringir o acesso deles, mas
também porque é essencial para a compreensão
deles sobre a privacidade. Esses indivíduos, que
estão ativos nas redes sociais e na internet, precis-
am aprender a se proteger e a usar as informações
de diversas fontes de maneira respeitosa, garantin-
do que salvaguardem a privacidade dos outros.
Também precisamos treiná-los em todos os aspec-
tos relacionados à IA, já que a cibersegurança é
16 | Por que o plurilinguismo é importante
importante para garantir que tenhamos sistemas
protegidos por design.
Além disso, precisamos preparar essa geração para
usar essas ferramentas de forma responsável e
permanecer vigilantes quanto às capacidades
oferecidas pela IA. É crucial que eles continuem
aprendendo a interagir com a IA e a exercer controle
sobre o uso dos algoritmos. O desafio é que os algo-
ritmos são inteligentes e podem fornecer respostas,
mas precisamos garantir que essas respostas
sejam precisas. Os alunos precisam pensar critica-
mente e modificar respostas ou incorporar elemen-
tos adicionais para chegar à conclusão certa.
Também devemos considerar como os algoritmos
impactarão o futuro e integrá-los em nossa abord-
agem de ensino. No direito, por exemplo, alguns
cargos em escritórios desaparecerão, pois os algo-
ritmos lidarão de forma eficiente com tarefas que
antes eram realizadas por estagiários, como a
coleta de dados. Essa mudança ocorrerá em diver-
sos campos, incluindo medicina e história. Precis-
amos educar essa geração, pois alguns empregos
desaparecerão.
Por fim, precisamos de regulamentação para
garantir que não percamos a batalha contra a IA e
os avanços digitais, não para impedir o progresso,
mas para assegurar disciplina no uso dessas tecno-
logias e nos ajudar a antecipar possíveis efeitos
colaterais que possam surgir do uso inadequado da
tecnologia.
E, com base na sua experiência em direito bancário e
propriedade intelectual, como as universidades
devem evoluir os currículos de negócios e direito
para preparar melhor os alunos para carreiras em
fintech, comércio impulsionado por IA e direito
digital?
Já adaptamos nosso currículo para preparar os
alunos para a era digital, especialmente nas áreas de
propriedade intelectual (PI) e direito bancário. O surgi-
mento das tecnologias digitais afetou primeiro o
campo da PI, onde o acesso online a obras protegidas
se tornou uma realidade. Para lidar com essa
mudança, estamos atualizando nosso currículo há
mais de 15 anos, garantindo que os alunos estejam
bem preparados para lidar com temas digitais em
suas carreiras. Em relação ao direito bancário,
também implementamos mudanças significativas,
transformando nossos antigos cursos de finanças e
direito bancário em um programa mais abrangente
que cobre finanças, fintech e direito bancário digital.
Nossos professores contribuem ativamente para a
formulação de regulamentações na Europa, particu-
larmente com a adoção de uma nova estrutura sobre
ativos digitais. Ao participar dessas discussões regu-
latórias, nos esforçamos para garantir que o emer-
gente ecossistema financeiro digital, que atualmente
carece de supervisão suficiente, seja orientado por
uma regulamentação bem-informada e equilibrada.
No entanto, regular a paisagem em rápida evolução
do fintech e do comércio impulsionado por IA continua
Não me considero uma
líder tradicional e
autoritária; ao
contrário, adoto uma
abordagem mais
colaborativa, que vem
do meu histórico de
trabalho em um contexto
mais horizontal com
diversas pessoas, em vez
de uma estrutura vertical
e hierárquica.
“
“
17
Por que o plurilinguismo é importante |
sendo um desafio constante. As regulamentações
geralmente surgem em resposta a novos comporta-
mentos, exigindo que nos adaptemos rapidamente.
Nossa abordagem não é criar regulamentações do
zero, mas sim construir e adaptar as estruturas legais
existentes.
Em conclusão, as universidades devem continuar a
evoluir seus currículos de negócios e direito para
preparar os alunos para a paisagem em constante
mudança do fintech, comércio impulsionado por IA e
direito digital. Nosso foco deve ser em construir sobre
as regulamentações e princípios existentes para
enfrentar os desafios impostos pela tecnologia
emergente, ao mesmo tempo em que reconhece-
mos a necessidade contínua de adaptação e treina-
mento ao longo da carreira do aluno.
Como a SUAD se posiciona dentro do panorama
mais amplo da educação superior nos EAU e além?
Desde 2014, com a implementação de nosso novo
plano estratégico, colocamos a pesquisa e a
educação no centro de nossa missão. Isso significa
que nosso objetivo é estabelecer mais centros de
pesquisa para promover pesquisas de alto nível em
diversas áreas, incluindo IA, biologia marinha, física
quântica e outras. Nossa estratégia envolve realizar
pesquisas orientadas por objetos, em vez de ser
estritamente baseadas em áreas específicas. Por
exemplo, no estudo da IA, não nos limitaremos aos
seus aspectos científicos ou humanísticos, mas ado-
taremos uma perspectiva holística para explorar
todas as dimensões do assunto. Essa abordagem
transdisciplinar
garantirá
que
nossa
pesquisa
abranja diversos aspectos. Em termos práticos, isso
significa que, no campo da IA, analisaremos, por
exemplo, as implicações legais em relação às regu-
lamentações e algoritmos, considerações geográfi-
cas relacionadas à sustentabilidade e aplicações
médicas para diagnóstico. Da mesma forma, com o
lançamento de nosso Instituto do Oceano em
dezembro de 2023, nosso foco se estenderá além da
biologia marinha, incluindo pesquisas interdisciplin-
ares sobre as implicações legais e biológicas da
poluição por plásticos, por exemplo.
Também
buscamos
aprimorar
nossas
ofertas
educacionais para torná-las mais adaptáveis e
desenvolver modelos de ensino mais flexíveis, prepa-
rando nossos alunos para enfrentar os desafios
impostos
pelas
novas
tecnologias
e
pela
globalização. No entanto, estamos comprometidos
em manter o DNA da Universidade Sorbonne, que há
séculos se baseia na excelência e em altos padrões
para nossos alunos.
No contexto da educação superior nos EAU, a SUAD
ocupa uma posição única. Embora sejamos relativa-
mente pequenos dentro do ecossistema de pesqui-
sa, contamos com o apoio de nossas universidades
parceiras na França, a Sorbonne Université e a Univer-
sité Paris Cité, que estão entre as mais prestigiadas do
país. Com acesso a mais de 25.000 pesquisadores,
podemos fomentar pesquisas de alto nível em Abu
Dhabi, lançando projetos estratégicos que não
apenas beneficiam a SUAD, mas também se alinham
com os interesses nacionais.
À medida que a educação superior continua a
evoluir, qual é uma mudança ou inovação que você
espera ver na academia global na próxima década, e
como você vê a Sorbonne Abu Dhabi contribuindo
para essa visão?
Nos próximos dez anos, acredito que o setor de
educação superior evoluirá para levar em conta os
desafios globais que estamos enfrentando no mundo
atual, incluindo as mudanças climáticas, o aqueci-
mento global e a necessidade urgente de inovação
em saúde e medicina. É crucial manter em mente os
desafios que nossa sociedade enfrenta e adaptar o
setor de educação superior de acordo. Ao alinhar
nosso currículo tanto com os requisitos de conheci-
mento substancial quanto com métodos pedagógi-
cos modernos, nosso objetivo é capacitar os futuros
profissionais com as habilidades e a adaptabilidade
necessárias para se destacarem em um cenário em
constante mudança.
Ao continuar enfatizando o pensamento crítico e ensi-
nando os alunos a se envolver com o conhecimento,
garantiremos que eles sejam bem preparados e
capazes de enfrentar diversos desafios. Eu mesma
experimentei
as
limitações
dessa
abordagem
pessoalmente como advogada especializada em
direito digital. Pode ser complicado comunicar-se
com cientistas, pois nossos campos exigem perspec-
tivas diferentes. Portanto, é essencial treinar alunos
que possam entender tanto as perspectivas jurídicas
18 | Por que o plurilinguismo é importante
quanto científicas. Ao cultivar tanto o conhec-
imento especializado quanto a capacidade
de colaborar, podemos preparar melhor
nossos graduados para se tornarem não
apenas
especialistas
proficientes,
mas
também cidadãos globais responsáveis.
Muito obrigada por responder às nossas
perguntas. Para finalizar, ao longo de sua
carreira — como acadêmica de Direito,
educadora e agora chanceler — qual tem
sido o aspecto mais gratificante de sua
jornada
na
educação
superior,
e
que
conselho você daria a estudantes e jovens
acadêmicos que aspiram a liderar em suas
respectivas áreas?
Sonhe, adquira habilidades para resolver
problemas e cultive a tolerância!
O aspecto mais gratificante da minha jornada
como professora e chanceler no setor educa-
cional é a oportunidade de conscientizar os
alunos — oferecendo-lhes o conhecimento e
a educação necessários para pensar critica-
mente e se tornarem cidadãos responsáveis
no futuro. Liderando uma instituição como a
SUAD, vejo de perto como essa geração está
enfrentando alguns desafios, incluindo confli-
tos e adversidades. No entanto, sinto-me
cheia de esperança quando vejo os alunos no
Átrio e ao redor do campus vivendo e apren-
dendo juntos pacificamente, esforçando-se
para compreender uns aos outros e adquirin-
do o conhecimento que os ajudará a lidar
com essas dificuldades no futuro. Esse senso
de comunidade e colaboração é, para mim, a
maior recompensa da minha carreira.
Acredito que nunca deixei de ser professora;
sempre abracei o papel de educadora.
Ensinar e compartilhar conhecimento são
Acredito que nunca deixei de
ser professora; sempre
abracei o papel de educadora.
Ensinar e compartilhar
conhecimento são partes
essenciais de quem eu sou e do
que faço, e tenho orgulho do
impacto que posso causar por
meio dessas
interações
“
“
partes integrantes de quem eu sou e do que faço,
e tenho orgulho do impacto que posso causar por
meio dessas interações. Meu conselho para os
estudantes e jovens acadêmicos é continuar
acreditando em seus sonhos; se você aspira a
levar o conhecimento à sociedade, você contribui
para a solução. Persevere, mesmo diante do
fracasso. O fracasso é uma parte inevitável da
jornada; você não pode ter sucesso sem passar
por contratempos. Na verdade, acredito que
aprendemos mais com nossos fracassos do que
com nossos sucessos. Então, continue a sonhar,
continue trabalhando duro e confie que seus
esforços, eventualmente, darão frutos.
19
Por que o plurilinguismo é importante |
Salima Almuete Loutfi
Doutoranda em Administração de Empresas
Universidade de Abu Dhabi, EAU
Gerente de Felicidade do Cliente
Hospital Geral Sheikh Khalifa, Emirado de Umm Al Quwain
| Special Edition
01
VOZ DO ALUNO
Transformando a saúde para
um futuro sustentável
através da minha jornada doutoral
20 | Por que o plurilinguismo é importante