Multilingual Global Exclusive
Foco Regional
Dr. Fares Howari,
Diretor da Faculdade de
Humanidades e Ciências,
Universidade de Ajman
EAU
Voz do Aluno
Karam Abuodeh,
Universidade de Birmingham
Dubai, EAU
NESTA EDIÇÃO
Perspectivas da Indústria
Dra. Mireille Elhajj
CEO e Fundadora,
Astraterra
Professora associada
visitante,
Imperial College London,
Reino Unido
Destaque de Liderança
Dra. Angie Brooks-Wilson
Diretora da Faculdade de
Ciências,
Simon Fraser University,
Canadá
Perspectivas Acadêmicas
Dr. Rahaf Ajaj,
Universidade de Abu Dhabi,
EAU
Volume 4
Maio 2025
Perspectivas preparadas
para o futuro
Ciências ambientais
que salvam o mundo:
Índice
Editorial
Bem-vindos à
UniNewsletter
por Laura Vasquez Bass
Editora-chefe
Perspectivas
da Indústria
Como o uso do Sensoriamento
Remoto e da Observação da Terra se
tornou um esforço internacional que
não pode ser ignorado
por Dra. Mireille Elhajj
CEO e Fundadora da Astraterra
Professora associada visitante e
membro do Conselho Consultivo
Industrial,
Imperial College London
Destaque
de Liderança
Promovendo colaborações
preparadas para o futuro na Simon
Fraser University
(SFU):
Entrevista com a Professora Angie
Brooks-Wilson, Diretora da Facul-
dade de Ciências, SFU, Canadá
Perspectivas
Acadêmicas
Quebrando fronteiras: como a
pesquisa interdisciplinar está
impulsionando a inovação
ambiental
por Dra. Rahaf Ajaj
Chefe do Departamento de
Saúde Ambiental e Segurança,
Faculdade de Ciências da Saúde,
Abu Dhabi University, Emirados
Árabes Unidos (EAU)
Foco Regional
Do satélite à política: como a
Observação da Terra está
impulsionando o desenvolvimento
sustentável em regiões áridas
por Dr. Fares Howari
Diretor da Faculdade de Humani-
dades e Ciências,
Universidade de Ajman, Emirados
Árabes Unidos (EAU)
Voz do Aluno
Construindo pontes: como a
colaboração intersetorial está
moldando o futuro da ação
climática
por Karam Abuodeh
Mestrando em Engenharia, Ciência
da Computação e Engenharia de
Software,
Líder de Atividades da Associação
Estudantil, Universidade de Birming-
ham Dubai, Emirados Árabes Unidos
04
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20
24
Descubra o que a
Simon Fraser
University, no
Canadá, está
fazendo para
enfrentar questões
ambientais
críticas.
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Página 10
Esses breves resumos
simplesmente não
conseguem fazer jus
aos temas complexos
que esses autores
exploram
com tanta habilidade e
respeito pelas questões
centrais
em jogo
O tema desta edição especial da UniNewslet-
ter, “Ciências ambientais que salvam o
mundo: perspectivas preparadas para o
futuro”, é ao mesmo tempo alarmante e inspi-
rador. Nosso contexto global envolve as múlti-
plas formas pelas quais nosso planeta está
ameaçado pelas mudanças climáticas —
elevação do nível do mar, eventos climáticos
extremos, alterações nos ecossistemas e
degradação dos recursos naturais. Esses
fenômenos
deixaram
de
ser
projeções
hipotéticas e se tornaram realidades diárias
para milhões de pessoas ao redor do mundo.
A biodiversidade está desaparecendo, a segu-
rança alimentar e hídrica está sob pressão, e
os diversos impactos da degradação ambien-
tal na saúde humana estão cada vez mais
evidentes. Desde o aumento de doenças
respiratórias causadas pela poluição, passan-
do pela disseminação de doenças transmiti-
das por vetores em climas mais quentes, até o
crescimento dos problemas de saúde mental
associados à ansiedade climática e ao deslo-
camento, o impacto na saúde humana é vasto
e multifacetado. Também estão sendo traça-
das conexões entre exposições ambientais e o
desenvolvimento de câncer, enquanto ondas
de calor e má qualidade do ar afetam despro-
porcionalmente populações vulneráveis como
crianças, idosos e comunidades de baixa
renda.
No entanto, paralelamente a essa crise,
surgem esforços inovadores — até salvadores
— para enfrentar esses desafios: o floresci-
mento de uma ciência ambiental genuina-
mente interdisciplinar. Pesquisadores ao redor
do mundo estão formando novas parcerias
entre diferentes áreas — cientistas atmosféri-
cos colaborando com urbanistas, biólogos
marinhos com pesquisadores de políticas
públicas, cientistas da saúde contribuindo
Laura Vasquez Bass
Nota da Editora-chefe
“
“
EDITORIAL
Bem-vindos à
UniNewsletter
04
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
com modelos de transição energética. As fron-
teiras entre as disciplinas estão se tornando
mais fluidas, de maneira produtiva e voltada
para o futuro. Como afirma de forma brilhante o
autor da seção Voz do Aluno desta edição,
Karam Abuodeh, da Universidade de Birming-
ham Dubai: “As soluções que buscamos precis-
am ser tão interconectadas quanto os próprios
desafios.” Esta edição destaca justamente esse
pensamento interligado, trazendo reflexões de
pessoas cujo trabalho representa o espírito
colaborativo e visionário que a pesquisa ambi-
ental exige atualmente.
Abrindo a edição, temos o prazer de apresentar
a Dra. Mireille Elhajj, CEO e fundadora da empre-
sa britânica Astraterra, além de professora asso-
ciada visitante e membro do Conselho Consulti-
vo Industrial do Imperial College London. Atuan-
do com destaque tanto no setor acadêmico
quanto na indústria, a Dra. Elhajj escreve em
nossa seção Perspectivas da Indústria sobre
Sensoriamento Remoto e Observação da Terra,
que, como ela afirma, “tornaram-se ferramentas
essenciais para lidar com as mudanças ambi-
entais e da biodiversidade, monitorar e anteci-
par desastres naturais e avaliar a preparação da
infraestrutura existente.” Ela destaca especial-
mente a importância da colaboração internac-
ional para democratizar o acesso a essas tecno-
logias, permitindo que países do Sul Global
também se beneficiem de seus recursos.
Na entrevista da seção Destaque de Liderança,
apresentamos o trabalho da Professora Angie
Brooks-Wilson, diretora da Faculdade de Ciên-
cias da Simon Fraser University (SFU), no
Canadá, e Cientista Emérita no Michael Smith
Genome Sciences Centre. Conversamos com ela
sobre como a SFU promove soluções ambientais
e de sustentabilidade por meio de programas
educacionais e projetos especiais. A Dra.
Brooks-Wilson enfatizou o papel fundamental da
colaboração interdisciplinar para o sucesso
desses projetos, envolvendo participantes de
toda a universidade. Também tivemos a opor-
tunidade de conversar sobre sua própria
pesquisa, em especial o foco do seu laboratório
no envelhecimento saudável dos “Super Idosos”
— pessoas com 85 anos ou mais que nunca
foram diagnosticadas com câncer, doenças
cardiovasculares,
diabetes,
doenças
pulmonares graves ou demência.
Na seção Perspectivas Acadêmicas, contamos
com a contribuição da talentosa Dra. Rahaf Ajaj,
presidente do Departamento de Saúde Ambien-
tal e Segurança da Faculdade de Ciências da
Saúde da Universidade de Abu Dhabi, nos Emira-
dos Árabes Unidos. Seu artigo destaca a
importância da colaboração interdisciplinar no
enfrentamento dos desafios ambientais atuais e
mostra
como
questões
como
poluição,
mudanças climáticas e sustentabilidade não
são apenas científicas, mas também profunda-
mente interligadas a saúde, comportamento,
políticas públicas, tecnologia e equidade. De
aplicações de aprendizado de máquina para
mapear radiação no solo, à concepção de
cidades inteligentes centradas no ser humano,
passando pelo descarte inadequado de medic-
amentos e qualidade do ar em ambientes inter-
nos — cada exemplo reforça a necessidade de
soluções integradas e colaborativas. O artigo faz
um apelo convincente por uma ação ambiental
eficaz que cruze setores, disciplinas e comuni-
dades — com base na inovação e na inclusão.
Na seção Foco Regional, temos a honra de apre-
sentar as reflexões do Dr. Fares Howari, Diretor da
Faculdade de Humanidades e Ciências da
Universidade de Ajman, também nos EAU.
Atuando como um excelente estudo de caso
para as questões levantadas pela Dra. Elhajj, o
Dr. Howari mostra como as tecnologias de
Observação da Terra, aprimoradas pela IA e
pela colaboração interdisciplinar, estão trans-
formando o desenvolvimento sustentável na
região do MENA. Desde a detecção precoce da
salinização do solo até o monitoramento de
águas subterrâneas e da dinâmica da vege-
tação, essa observação oferece insights essen-
ciais e de alta resolução sobre os desafios am-
bientais das zonas áridas e semiáridas. Essas
ferramentas permitem que os formuladores de
políticas avancem de uma resposta reativa
para uma adaptação proativa, com a IA aceler-
ando as capacidades de alerta precoce. Ao
integrar ciência, tecnologia e saberes locais, a
região do MENA está usando a Observação da
Terra não apenas para obter dados, mas para
impulsionar ações decisivas e voltadas para as
comunidades.
Encerrando esta edição, na seção Voz do Aluno,
Karam Abuodeh, estudante de Ciência da Com-
putação e Engenharia de Software da Universi-
dade de Birmingham Dubai, reflete sobre como
a colaboração entre setores é essencial para
enfrentar a crise climática. Com base em
experiências em simulações climáticas inter-
nacionais, participação na COP28 e estágios
nas áreas de tecnologia e fintech, Karam desta-
ca que o progresso sustentável depende da
união entre tecnologia, políticas públicas, edu-
cação e justiça social. Seja simulando nego-
ciações globais ou organizando conferências
Modelo das Nações Unidas (MUN) juvenis, ele
defende que dar voz à diversidade — especial-
mente aos jovens — é fundamental para criar
sistemas resilientes e inclusivos. Seu artigo é um
chamado à ação por uma liderança climática
integrada e interdisciplinar.
Esses breves resumos simplesmente não con-
seguem fazer jus aos temas complexos que
esses autores exploram com tanta habilidade e
respeito pelas questões centrais em jogo. Espero
que você se sinta inspirado(a) a refletir sobre
como suas próprias habilidades podem con-
tribuir de maneira significativa para soluções
nesse momento de necessidade global.
05
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
Como o uso de Sensoriamento
Remoto e da Observação da terra
se tornou um esforço internacional
que não pode ser ignorado
PERSPECTIVAS DA INDÚSTRIA
A capacidade de observar e analisar a Terra de
forma sistemática e remota tornou-se uma base
essencial da ciência ambiental moderna, da
gestão de crises e do monitoramento de
infraestrutura. Nesse contexto, o sensoriamento
remoto e a observação da Terra surgiram como
importantes
ferramentas
para
enfrentar
as
mudanças ambientais e na biodiversidade, moni-
torar e antecipar desastres naturais e avaliar a
prontidão das infraestruturas existentes. Com o
apoio e aprimoramento da IA, o uso de tecnolo-
gias via satélite, sistemas baseados em solo e
tecnologias aéreas ou terrestres, como visão
computacional, dados in situ ou sondas aéreas
(como drones), possibilita análises avançadas e
precisas, otimizando o uso de dados abundantes
coletados ao longo de longos períodos. A
ascensão da Nova Economia Espacial — que
permitiu ao setor comercial entrar no setor espa-
cial,
antes
monopolizado
por
governos
—
contribuiu significativamente ao abrir novos
caminhos para inovação em sensoriamento ativo
e de alta resolução (em nível submétrico).
Após concluir meu doutorado no Imperial College
London e ocupar diversas outras funções — como
Diretora do Programa Integrado de Engenharia
Espacial, Pesquisadora Sênior no Departamento
de Engenharia Civil e Ambiental e Fellow de Segu-
rança no Instituto de Ciência e Tecnologia de
Segurança — fundei a Astraterra. Nossa empresa,
sediada no Reino Unido, é especializada em mod-
elagem e integração de dados de Posição,
Navegação e Tempo (PNT) e de Observação da
Terra (OT), com o objetivo de apoiar a resiliência
ambiental, social e econômica. Atendemos diver-
sos setores, incluindo cidades conectadas e inteli-
gentes,
sustentabilidade,
monitoramento
ambiental e infraestrutura resiliente. A Astrater-
ra desenvolve soluções para integração fluida
com fluxos de trabalho já existentes, adaptando
tecnologias emergentes e garantindo o manu-
seio seguro e em conformidade dos dados. Ao
integrar múltiplas fontes de dados, fornecemos
informações precisas e acionáveis, além de
criar plataformas e aplicações especializadas
sob medida.
Minha missão profissional, tanto dentro quanto
fora da Astraterra, é promover Ciência, Tecno-
logia e Inovação com uma mentalidade volta-
da para inclusão, equidade, sustentabilidade e
operações conectadas com as necessidades
humanas. No artigo a seguir, reflito sobre o
poder da Observação da Terra (OT), assim
como sobre questões de acessibilidade que
precisam ser enfrentadas pela comunidade
internacional, a partir da minha perspectiva
como profissional da indústria.
Dra. Mireille Elhajj
CEO e Fundadora da Astraterra
Professora associada visitante e
membro do Conselho Consultivo Industrial,
06
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
Dra. Mireille Elhajj
CEO e Fundadora da Astraterra
Professora associada visitante e membro do
Conselho Consultivo Industrial, Imperial College London
07
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
O
poder
da
Observação
da
Terra
e
do
Sensoriamento Remoto
A OT não serve apenas para monitorar mudanças
— ela é essencial para sistemas de alerta precoce
e para a construção de resiliência. Ao aceitar que
riscos e desastres naturais existem, podemos com-
preendê-los melhor e estar mais preparados, além
de reconstruir de forma mais eficaz — uma habili-
dade que países como o Japão dominaram, dada
sua localização geográfica de alto risco. A OT está
no centro dessa compreensão e no aprimoramen-
to da nossa resiliência. A gestão de crises é uma
das aplicações mais comuns do sensoriamento
remoto. Desastres naturais como terremotos,
ciclones tropicais e incêndios florestais exigem
respostas imediatas, e imagens de satélite ofere-
cem uma visão clara das áreas afetadas. Por
exemplo, dados dos satélites MODIS da NASA e
Sentinel-3 da ESA permitiram o rastreamento da
propagação dos incêndios florestais australianos
em 2019 e 2020 quase que em tempo real, auxilian-
do nas recomendações de evacuação e nos
esforços de combate ao fogo. Da mesma forma,
modelos de estimativa de inundações utilizam
simulações hidrológicas junto a informações de
detecção remota para prever zonas de alagamen-
to e facilitar ações preventivas.
Na área de energia, a imagem térmica é ampla-
mente utilizada para inspecionar usinas e redes
elétricas. Ao identificar anomalias de calor em
transformadores e subestações, o sensoriamento
remoto ajuda a detectar componentes super-
aquecidos antes que falhem, garantindo o forneci-
mento contínuo e eficiente de energia. Sistemas de
dutos que transportam petróleo e gás também se
beneficiam
do
sensoriamento
remoto,
com
imagens térmicas e hiperespectrais por satélite
capazes de identificar vazamentos e antecipar
riscos de contaminação ambiental.
A vantagem da OT está na sua capacidade de se
integrar com diversas outras aplicações, como os
Sistemas Globais de Navegação por Satélite ou
dados de Posição, Navegação e Tempo, para criar
mapas georreferenciados. Na área de infraestrutu-
ra urbana e planejamento, a OT pode ser incorpo-
rada a Sistemas de Informação Geográfica. Essas
“Os dados de sensoriamento
remoto ajudam na
preparação para desastres,
permitindo que autoridades
municipais estimem riscos
de enchentes, identifiquem
infraestruturas vulneráveis e
otimizem estratégias de
gestão de emergências. “
inovações ajudam a analisar o tráfego urbano,
otimizar redes viárias e aprimorar o uso do solo. Os
dados de sensoriamento remoto também são úteis
na preparação para desastres, permitindo que
autoridades
municipais
estimem
riscos
de
enchentes, identifiquem infraestruturas vulneráveis e
otimizem estratégias de gestão de emergências —
como no caso de rodovias, por exemplo.
Desafios e oportunidades:
É claro que essa tecnologia precisa estar apoiada na
acessibilidade a dados e modelos sofisticados, além
de soluções paramétricas — sem esses elementos,
não é possível criar uma representação digital
confiável.
Diversas
organizações
internacionais
atuam para facilitar o acesso a esses dados, como o
Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco
de Desastres (UNDRR), o programa UN-SPIDER (Infor-
mação Baseada no Espaço para Gestão de Desas-
tres e Resposta a Emergências) e a Carta Internac-
ional: Espaço e Grandes Desastres, um mecanismo
global que pode ser ativado em situações de
emergência. Além disso, o Escritório das Nações
Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA), o
UN-SPIDER e outras entidades atuam em cooperação
com agências espaciais como a NASA, ESA e JAXA,
que fornecem parte significativa desses dados.
Os países do Norte Global demonstram grande
capacidade em observação da Terra e sensoria-
mento remoto por meio de programas governamen-
tais, como o Copernicus, europeu, e de um ecossiste-
ma comercial em rápida expansão. Alguns países
asiáticos, como o Japão — e mais recentemente a
Índia —, também se destacam, mas a situação nos
países emergentes do Sul Global é bem diferente:
muitos
deles
não
possuem
a
infraestrutura
necessária, nem os recursos financeiros e técnicos
para se equiparar. Um exemplo é o Paraguai. Quando
o país foi atingido por uma recente enchente, acion-
ou a Carta Internacional, que lhe forneceu um
conjunto de dados brutos. O Paraguai, no entanto,
não possui capacidade interna suficiente para
processar esses dados. Graças a parcerias estratégi-
cas com países vizinhos e a acordos internacionais
com agências como a JAXA, ESA, NASA e o programa
UN-SPIDER, foi possível processar os dados com apoio
externo. Assim, os dados ficaram prontos para serem
08
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
“
Em um mundo sujeito a riscos
naturais e provocados pelo homem,
a colaboração internacional, o
compartilhamento de dados e
políticas de dados abertos são
essenciais. Quanto mais
diversificadas essas parcerias, mais
protegido está um país com
recursos limitados.
“
usados e analisados conforme as necessidades do
país, contando também com uma missão técnica
enviada pelo UN-SPIDER. Por outro lado, esse privilé-
gio nem sempre é garantido para os países que
não asseguraram as relações e acordos políticos e
estratégicos necessários.
Em um mundo marcado por riscos naturais e
provocados pelo ser humano, a colaboração trans-
fronteiriça, o compartilhamento de dados e políti-
cas de dados abertos são essenciais. Quanto mais
diversificadas forem essas parcerias, mais protegi-
do estará um país com recursos limitados. O segre-
do, portanto, não está necessariamente em possuir
ativos espaciais de alto custo, mas sim em saber
aproveitar as capacidades já existentes — ricas e
diversificadas — e explorar o potencial da combi-
nação entre dados de código aberto e dados com-
erciais. Os avanços alcançados por empresas
privadas impulsionaram o desenvolvimento da
resolução dos sensores, dos processadores de
informação e da aplicação de IA na análise de
dados. O crescimento das constelações de satélites
comerciais, operadas por empresas como a Planet
Labs e a Maxar Technologies, tornou economica-
mente viável, em certa medida, a obtenção de
imagens de alta resolução e alta frequência para o
monitoramento ambiental quase em tempo real.
No entanto, essa realidade ainda está fora do
alcance de muitos países emergentes com recur-
sos financeiros limitados.
Ao combinar os dois tipos de dados em uma plata-
forma específica para determinada aplicação, é
possível ampliar significativamente o potencial e o
alcance do que já está disponível. Essa integração
de dados é potencializada por IA, que permite reav-
aliar anomalias e características captadas por
satélites de radar (por exemplo, em áreas urbanas)
com um nível de detalhamento sem precedentes.
Uma questão adicional é a última etapa, que inclui
capacidade de nuvem e a disponibilização de
recursos para comunidades que não têm acesso a
conjuntos de dados comerciais.
Porém, há necessidades fundamentais no Sul
Global. A primeira é a capacitação e a educação
na área; a segunda é o financiamento desse valor
agregado, já que os dados comerciais não são
gratuitos e podem ter custos bastante elevados.
Embora
muitas
agências
espaciais
nacionais
adquiram esses dados comerciais, combinem com
dados de código aberto e ofereçam soluções aos seus
usuários, o acesso independente a esses dados com-
erciais continua sendo uma necessidade real, dada
sua contribuição inestimável em termos de resolução e
técnica. No entanto, vários países emergentes não têm
uma agência espacial ou não contam com profission-
ais qualificados na área. Todos esses fatores estão
fortemente ancorados em educação, capacitação
técnica e financiamento por parte de comunidades
internacionais como o Banco Mundial e as Nações
Unidas, que podem desempenhar um papel crucial na
promoção do intercâmbio de dados e no fortalecimen-
to da capacidade de processá-los e analisá-los
quando e onde for necessário — sem influências políti-
cas.
À medida que o mundo enfrenta desafios cada vez
mais urgentes, acordos bilaterais e internacionais
eficazes se tornarão cada vez mais importantes para a
formulação de políticas, resposta a desastres e comu-
nidades de ajuda humanitária. Porém, muitos desafios
vão além disso, incluindo a capacidade de banda, falta
de energia elétrica, capacidade de nuvem e a ausên-
cia de uma entidade representativa capaz de lidar
com os dados de Observação da Terra adquiridos,
como uma agência espacial ou uma equipe dedicada.
O caminho pode ser longo para alguns, mas não há
nada que um esforço conjunto, apoiado por organ-
izações internacionais, não possa alcançar.
09
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
Dr. Angela Brooks-Wilson,
Diretora da Faculdade de Ciências, Simon Fraser University, Canadá
Cientista Emérita, Michael Smith Genome Sciences Centre, Canadá
DESTAQUE DE LIDERANÇA
10
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
Fostering Future-Proof Collaborations
at Simon Fraser University (SFU):
Uma Entrevista com a Professora
Angie Brooks-Wilson, Diretora da Faculdade
de Ciências da SFU, Canadá
11
Professora
Brooks-Wilson,
estamos
muito
felizes em ter a oportunidade de falar com a
senhora hoje nesta edição especial da UniN-
ewsletter. Como de costume nas nossas entre-
vistas da seção Destaque de Liderança,
poderia se apresentar para nossos leitores,
incluindo como chegou ao seu cargo atual de
diretora da Faculdade de Ciências na SFU?
Obrigada, estou muito feliz em conversar com
vocês.
Voltar para a SFU foi como fechar um ciclo. Entrei
na SFU como estudante de graduação em
Bioquímica e vivi o que chamo de plena aventu-
ra
acadêmica,
estudando
em
diferentes
lugares, antes de voltar para casa. Fui para
Toronto fazer um mestrado, depois estudei
genética humana no meu doutorado na Univer-
sidade da Columbia Britânica (UBC), seguido de
um breve pós-doutorado na Universidade de
Washington. Então, fiz algo incomum na época e
entrei para uma empresa de biotecnologia,
Sequana Therapeutics, em San Diego, seguida
de uma empresa em Vancouver, Xenon Phar-
maceuticals. Depois de trabalhar na indústria
por 7 anos, tive o grande privilégio de entrar
para o famoso Genome Sciences Centre, no BC
Cancer em Vancouver. Segui um caminho
pouco convencional — da indústria de volta ao
ambiente acadêmico de pesquisa — e foi real-
mente maravilhoso chegar lá e ter total liber-
dade sobre o que investigaria no meu labo-
ratório independente de genética do câncer.
Aproveitando algumas das forças já consolida-
das do BC Cancer na área de cânceres linfoides,
e em colaboração com excelentes epidemiolo-
gistas do câncer, comecei a trabalhar com a
genética desses cânceres e, pouco tempo
depois, acrescentei à pesquisa o estudo do env-
elhecimento saudável, focando nos ‘Super
Idosos’ excepcionalmente saudáveis.
Minha posição inicial foi na UBC, mas minha
nomeação foi transferida para a SFU em
2008. Foi lá que meu interesse por liderança
surgiu e cresceu. O presidente do meu
departamento perguntou se eu poderia
liderar o programa de pós-graduação do
departamento, e eu aceitei (porque alguém
precisava fazer isso!), mas logo percebi que
era muito satisfatório ajudar os estudantes
de pós-graduação e supervisores a resolver
problemas e retomar seus estudos e projetos.
Eu e meu comitê de colegas esclarecemos
cronogramas e processos, reduzimos os
requisitos dos cursos e criamos uma via de
entrada direta para os melhores estudantes
do bacharelado em Ciências ingressarem
diretamente no programa de doutorado.
Durante esse tempo, também liderei o
Programa de Pós-graduação Interdisciplinar
de Oncologia do BC Cancer e, com meus
colegas lá, expandimos para ser uma espe-
cialização
de
pós-graduação
multi-in-
stitucional.
Fui convidada a ser Vice-presidente Associa-
da e depois Presidente do Departamento de
Fisiologia Biomédica e Cinesiologia, e achei
muito gratificante simplificar processos, mel-
horar os espaços de ensino e resolver proble-
mas diversos. Percebi que quando você
assume a liderança de algo pequeno e o faz
funcionar melhor, você é convidado a liderar
algo maior, e se fizer um bom trabalho, é
convidado a liderar algo ainda maior.
Durante a pandemia, quando eu tinha aca-
bado de guiar o departamento para apren-
der a colocar nossos cursos online, e como
ajudar uns aos outros a gerenciar esse
grande desafio, fui convidada para ser a
Vice-presidente Associada de Pesquisa pro
tempore, cargo que assumi após garantir
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
12
que um excelente colega estivesse disposto
a assumir a presidência do departamento.
Esse cargo foi super interessante e gratifi-
cante, com uma equipe maravilhosa, e
envolveu ajudar a manter a pesquisa finan-
ciada e avançando durante a pandemia. Era
muito tentador permanecer nesse cargo,
mas me ofereceram o cargo de Diretora da
Faculdade de Ciências, e aceitei porque
envolve a responsabilidade pelo sucesso
das pessoas e da pesquisa, bem como o
fornecimento de suporte para os membros
da faculdade e nossos estudantes de grad-
uação e pós-graduação. Embora seja um
papel complicado e desafiador, é muito
gratificante liderar a Faculdade de Ciências
e ajudar estudantes e cientistas de 8 disci-
plinas diferentes a alcançar seu melhor
aprendizado e pesquisa.
A SFU se posicionou como líder em pesquisa
interdisciplinar, particularmente em ciên-
cia ambiental e saúde pública. Como Dire-
tora da Faculdade de Ciências, como a sen-
hora vê essa abordagem moldando o
impacto da universidade nos desafios am-
bientais globais?
A pesquisa climática é a maior prioridade de
pesquisa da SFU, e a universidade está
avançando com essa pesquisa por meio do
projeto unificador do vice-presidente de
Pesquisa e Inovação, Community Centred
Climate Innovation (C3I). O C3I é baseado
em parcerias com a comunidade e um
compromisso com as perspectivas e conhe-
cimentos indígenas. Envolve pesquisadores
da SFU e membros das comunidades, par-
ticularmente das Primeiras Nações, em
pesquisa
sobre
resiliência
climática
e
adaptação. A pesquisa nas faculdades está
conectada ao C3I.
Na Faculdade de Ciências, a pesquisa sobre
células de combustível a hidrogênio liderada
por pesquisadores renomados no nosso
departamento de Química, e na Faculdade
de Ciências Aplicadas, levou ao compromis-
so de construir um Centro de Hidrogênio no
campus de Burnaby da SFU. A SFU tem um
ecossistema de inovação excepcional que
apoia invenção e empreendedorismo; uma
história particularmente inspiradora é como
um professor e um estudante de pós-gradu-
ação fizeram uma descoberta e fundaram a
premiada empresa IONOMR Innovations, que
desenvolve membranas para células de
combustível a hidrogênio.
A pesquisa em ciências da vida da SFU
também está fortemente relacionada à
pesquisa ambiental. O departamento de
Ciências Biológicas inclui pesquisadores pro-
eminentes que trabalham na conservação de
salmões e tubarões. A Faculdade de Ciências
da Saúde tem um cluster de pesquisa multidis-
ciplinar de destaque sobre saúde planetária,
um campo que é informado pela saúde ambi-
ental e abordagens ecológicas de saúde. O
departamento de Ciências da Terra está
pesquisando o efeito das mudanças climáti-
cas sobre geleiras e sobre riscos naturais, e os
graduados do seu programa estão em alta
demanda por empregadores. Na SFU, a con-
scientização sobre questões ambientais e de
sustentabilidade é alta, e quero fazer uma
menção especial aos nossos grupos estudan-
tis da SFU que organizaram, comunicaram e
foram influenciadores chave da decisão da
universidade de se desinvestir orgulhosamente
dos combustíveis fósseis.
A Escola de Ciências Ambientais da SFU foi
fundada para abordar questões ambientais
complexas através de uma perspectiva
multidisciplinar. Como essa iniciativa evoluiu
e que oportunidades ela cria para pesquisa,
impacto em políticas públicas e engajamento
estudantil?
A SFU tem a sorte de ter uma Faculdade de
Meio Ambiente dedicada, destacando o com-
promisso da universidade com a educação e
pesquisa sobre o meio ambiente. Seus depar-
tamentos são altamente multidisciplinares. O
departamento de Ciências Ambientais inclui
pesquisadores líderes em oceanos, rios, bacias
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
Embora seja um
papel complicado e
desafiador, é muito
gratificante liderar
a Faculdade de
Ciências e ajudar
estudantes e
cientistas de 8
disciplinas diferentes
a alcançar seu
melhor aprendizado
e pesquisa
“
“
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hidrográficas e ecossistemas costeiros e sub-
alpinos, entre outros tópicos. O departamento
de Geografia une geografia social e física em
estudos que vão de economias políticas a
sistemas terrestres. Na Escola de Gestão de
Recursos e Meio Ambiente, cientistas sociais e
naturais utilizam abordagens de pesquisa
interdisciplinares e treinam alunos para serem
agentes na melhoria da tomada de decisões
em gestão ambiental. E no renomado departa-
mento de Arqueologia da SFU, os alunos
podem se envolver em tópicos de pesquisa
que vão da megafauna do passado distante
aos inovadores jardins de moluscos usados
pelos povos Salish da Colúmbia Britânica. A
fusão das ciências físicas e sociais na Facul-
dade de Meio Ambiente apoia a interdiscipli-
naridade e a multidisciplinaridade, e posiciona
sua pesquisa e alunos para causar impacto na
sociedade
de
várias
maneiras,
inclusive
através de impactos em políticas públicas.
Como a senhora mencionou, as universi-
dades desempenham um papel crítico na
formação de políticas públicas. Do seu ponto
de vista, como a pesquisa acadêmica na SFU
pode ajudar a moldar decisões políticas sobre
resiliência climática, saúde ambiental e tran-
sições energéticas?
As universidades de pesquisa como a SFU
estão na vanguarda da busca por soluções
para os desafios sociais, como as mudanças
climáticas, e da busca de estratégias para miti-
gação e adaptação, promovendo a resiliência
climática. Na SFU, em especial, há grande força
na pesquisa baseada na comunidade e esta-
mos verdadeiramente engajados com nossas
comunidades locais. Pesquisadores de políticas
públicas, particularmente os que fazem parte da
Escola de Políticas Públicas da Faculdade de
Artes e Ciências Sociais, fazem parte dos proje-
tos de pesquisa baseados na comunidade que
compõem a iniciativa C3I. Isso posiciona os pro-
jetos de pesquisa e a SFU para ajudar a moldar
políticas sustentáveis, com base em evidências
sólidas de pesquisa e na compreensão das
necessidades das comunidades.
Para centralizar seu próprio perfil como pesqui-
sadora, seu trabalho tem focado em fatores
genéticos e ambientais no câncer. Poderia
contar mais aos nossos leitores sobre isso,
além de outros projetos em que está trabalhan-
do?
Minha pesquisa tem duas partes: pesquisa sobre
o câncer e sobre a saúde. Nos últimos anos, meu
laboratório tem se concentrado mais no nosso
“Estudo de envelhecimento saudável dos Super
Idosos”, que definimos como pessoas com 85
anos ou mais, que nunca foram diagnosticadas
com câncer, doenças cardiovasculares, diabe-
tes, doenças pulmonares graves ou demência.
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
As universidades de
pesquisa como a SFU estão
na vanguarda da busca por
soluções para os desafios
sociais, como as mudanças
climáticas, e da busca de
estratégias para mitigação
e adaptação, promovendo a
resiliência climática. Na
SFU, em especial, há grande
força na pesquisa baseada
na comunidade e estamos
verdadeiramente
engajados com nossas
comunidades locais.
“
“
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Então, o traço que estamos estudando é a liber-
dade de 5 doenças maiores do envelhecimen-
to, até a idade de 85 anos. As 5 doenças escol-
hidas são aquelas graves para as pessoas e
também muito caras para os sistemas de
saúde. Nossos participantes mais velhos foram
dois irmãos que viveram até 109 e 110 anos. É um
estudo positivo, porque todo mundo espera
poder se qualificar para ele! Do lado do estilo de
vida, a coisa mais notável sobre os Super Idosos
é que são fisicamente ativos — tão ativos
quanto adultos de meia-idade. Do lado genéti-
co, descobrimos variantes que se correlacion-
am com Super Idosos (eles têm menos chance
de carregar a variante de risco conhecida para
Alzheimer, APOE4, e têm mais chance de carre-
gar uma variante no gene HP que produz hap-
toglobina, uma proteína que liga a hemoglobi-
na livre liberada das células vermelhas danifi-
cadas).
Há alguns anos, analisamos os telômeros
(sequências específicas de DNA que protegem
as extremidades dos cromossomos) dos Super
Idosos,
nos
perguntando
se
eles
teriam
telômeros longos para a sua idade. Em vez
disso, descobrimos que o grupo de Super Idosos
apresentava comprimentos de telômeros mais
próximos de um valor ótimo inferido, do que os
de um grupo de comparação. Essa descoberta
nos motivou a usar conjuntos de dados
maiores, em particular o Estudo Longitudinal
Canadense
sobre
Envelhecimento,
para
investigar se existem outras características
em que pessoas saudáveis estejam mais
próximas de “pontos ideais” anteriormente
não reconhecidos. Estou trabalhando com um
colaborador incrível, o Dr. Lloyd Elliott, da SFU, e,
junto com nossos estudantes de pós-gradu-
ação, descobrimos diversas medidas corpo-
rais e sanguíneas que apresentam pontos
ideais — o que sugere que essas característi-
cas são importantes para um envelhecimento
saudável.
A pesquisa interdisciplinar frequentemente
enfrenta
barreiras
estruturais,
desde
limitações de financiamento até departa-
mentos
compartimentalizados.
Quais
estratégias a SFU adotou para promover a
colaboração entre disciplinas e o que mais
pode ser feito a nível institucional?
A SFU tem um Programa de Estudos Interdisci-
plinares
Individualizados
inovador
para
pós-graduação, em que estudantes podem
fazer pesquisa interdisciplinar para seu proje-
to de tese, supervisionado por professores de
diferentes disciplinas. O programa é incrivel-
mente flexível, já que você pode combinar
quaisquer disciplinas de estudo. Dr. Lloyd Elliott
e eu co-supervisionamos um estudante de
PhD Interdisciplinar, que teve a oportunidade
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
Como diretora, tento equilibrar a
promoção de boas ideias
apresentadas por outros, com minhas
próprias ideias para ajudar a
Faculdade de Ciências, seus membros
e a SFU a ter sucesso. Pesquisadores e
departamentos individuais são
apaixonados pelo seu próprio
trabalho, então incentivar o
crescimento de grupos colaborativos
bem-sucedidos dentro e entre
departamentos é um dos meus
principais objetivos.
“
“
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de aprender biologia e genética comigo, e
trabalhou com Lloyd para desenvolver novas
técnicas estatísticas para encontrar pontos
ideais em dados biológicos, depois identificar
loci genéticos que afetam quão perto um
indivíduo está desses valores ótimos. Esse tipo
de projeto é interdisciplinar e inovador, e
também foi uma experiência muito divertida,
porque todos nós estávamos aprendendo uns
com os outros ao mesmo tempo.
Pensando no futuro, quais são suas principais
prioridades para avançar na pesquisa ambi-
ental interdisciplinar na SFU? Há iniciativas
ou áreas de crescimento que a senhora
espera liderar nos próximos anos?
Como diretora, tento equilibrar a promoção de
boas ideias apresentadas por outros, com
minhas próprias ideias para ajudar a Facul-
dade de Ciências, seus membros e a SFU a ter
sucesso. Pesquisadores e departamentos indi-
viduais são apaixonados pelo seu próprio
trabalho, então incentivar o crescimento de
grupos colaborativos bem-sucedidos dentro e
entre departamentos é um dos meus princi-
pais objetivos. Um exemplo é o entusiasmo em
reconstruir a capacidade do nosso renomado
Programa de Gestão de Pragas, que é mais
relevante do que nunca na era das mudanças
climáticas. Outros incluem o crescimento de
centros de excelência em informação quânti-
ca e física astroparticulada, no departamento
de Física da SFU, o único departamento no
Canadá a ter dois Cátedras de Pesquisa de
Excelência do Canadá.
Também estou muito entusiasmada com as
estratégias da nossa Faculdade de Ciências
para melhorar a experiência dos estudantes
de graduação. Isso inclui programas volta-
dos para estudantes que aspiram a carrei-
ras em pesquisa em saúde, incluindo na
nova Escola de Medicina da SFU. A SFU é um
excelente lugar para estudar, e esses
esforços certamente darão frutos com o
tempo.
Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
Em uma era marcada pelos impactos das
mudanças climáticas, da poluição e da
necessidade urgente de tornar o planeta
sustentável, está cada vez mais claro que
não há soluções milagrosas dentro de uma
única disciplina. Tendo atuado na interface
entre ciência, políticas públicas, saúde e
educação por muitos anos, passei a me
convencer — profunda e irrevogavelmente —
do poder da cooperação interdisciplinar
para gerar mudanças positivas.
Essa convicção não moldou apenas as
pesquisas que realizo. Ela também orienta
minha liderança, inspira minhas aulas e
fortalece minha paixão por enfrentar os
desafios ambientais complexos que afetam
pessoas reais, em tempo real.
Uma jornada com propósito
Como presidente do departamento de
Saúde e Segurança Ambiental da Faculdade
de Ciências da Saúde da Universidade de
Abu Dhabi, tive a oportunidade de contribuir
para a formação acadêmica dos futuros
guardiões ambientais do mundo. Junto aos
meus colegas da faculdade, desenvolvemos
programas que não apenas transmitem
conhecimento, mas também despertam a
curiosidade, desafiam suposições e prior-
izam a ação.
Minhas aulas — que abrangem temas que
vão desde políticas ambientais até monito-
ramento da poluição — não são meros
exercícios teóricos. Elas são pensadas para
PERSPECTIVAS ACADÊMICAS
Quebrando Fronteiras:
Como a pesquisa interdisciplinar está impulsionando
a inovação ambiental
Dra. Rahaf Ajaj
Presidente do Departamento de Saúde e Segurança Ambiental
Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos (EAU)
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| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
conectar a ciência com as comunidades que
atendemos, incentivando os estudantes a avaliar
criticamente o mundo em que vivem e o papel
que desempenham nele.
No entanto, meu trabalho não termina na porta
da sala de aula. Também tive o privilégio de
representar os Emirados Árabes em diversos
fóruns internacionais, inclusive como membro do
Painel Consultivo de Alto Nível da ONU sobre Siste-
mas Alimentares, atuando na busca por soluções
para a sustentabilidade e a segurança alimentar
em um clima em constante transformação. Aqui
nos EAU, atuo como líder do capítulo local da
organização
Women
in
Renewable
Energy
Canada (WiRE), lutando por igualdade de gênero
na indústria de energia e promovendo iniciativas
que desenvolvem inovações sustentáveis em
todo o país. Além disso, sou líder do grupo temáti-
co de saúde pública e mudanças climáticas no
Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáti-
cas, onde coordeno iniciativas que integram
saúde humana e sustentabilidade ambiental —
uma interseção crítica para o futuro do planeta.
Onde as disciplinas se encontram, a inovação
floresce
ISe há algo que aprendi repetidamente, é o
seguinte: as maiores descobertas acontecem nos
cruzamentos. A ciência interdisciplinar não é uma
moda
passageira
—
é
uma
necessidade.
Questões ambientais nunca são puramente
científicas. Elas são econômicas, tecnológicas,
sociais e políticas. Solucioná-las exige a con-
vergência de diferentes expertises e a disposição
de colaborar além das fronteiras.
Minha própria trajetória acadêmica começou
com a ciência da radiação — em particular, a
medição da concentração de radionuclídeos em
solos agrícolas por meio da espectrometria
gama. Esse trabalho inicial me mostrou o valor de
compreender os riscos ambientais em detalhes
granulares. E, ao mesmo tempo, abriu caminho
para questões ainda maiores — e mais interdisci-
plinares.
Em um estudo recente, utilizamos modelos de
regressão por Processo Gaussiano —
uma abordagem de aprendizado de máquina —
para criar mapas dos níveis de radiação em
solos nos Emirados Árabes. Esse não foi apenas
um sucesso técnico. Foi um sucesso multidisci-
plinar que reuniu ciência de dados, geoestatísti-
ca, saúde pública e monitoramento ambiental
para gerar mapas que podem ser utilizados por
formuladores de políticas públicas para agir de
forma informada.
Na mesma linha, nosso trabalho sobre cidades
inteligentes sustentáveis envolveu a colabo-
ração com especialistas em áreas como engen-
haria, planejamento urbano e políticas públicas
para investigar o que significaria transformar
Abu Dhabi em uma cidade preparada para o
futuro: resiliente, inclusiva e, acima de tudo, cen-
trada nas pessoas.
Das turbinas eólicas ao esgoto: uma perspecti-
va mais ampla
Um projeto que achei realmente inspirador foi o
das turbinas eólicas sem pás Vortex Bladeless —
um novo tipo de dispositivo de energia renovável
com potencial para transformar a forma como
as cidades se abastecem de energia. Por meio
da fusão entre design experimental e simulação
numérica, estudamos a aerodinâmica, a eficiên-
cia estrutural e as vantagens ambientais. Mais
uma vez, foi a combinação entre disciplinas que
possibilitou a realização desse trabalho.
Igualmente urgente é o que conseguimos
realizar em relação às águas residuais nucle-
“
Tendo atuado na interface entre
ciência, políticas públicas, saúde
e educação por muitos anos,
passei a me convencer —
profunda e irrevogavelmente —
do poder da cooperação
interdisciplinar para gerar
mudanças positivas.
“
“Questões ambientais nunca são
puramente científicas. Elas são
econômicas, tecnológicas, sociais e
políticas. Solucioná-las exige a
convergência de diferentes
expertises e a disposição de
colaborar além das fronteiras.”
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Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
A ciência precisa
servir a todas as
populações,
especialmente
aquelas
tradicionalmente
negligenciadas ou
marginalizadas.
Inclusividade não é
apenas um imperativo
moral; é essencial
para alcançar os
objetivos do
desenvolvimento
sustentável.
“
ares. Com a crescente demanda energética
global e o avanço das opções nucleares, os
riscos ambientais representados pelas águas
residuais radioativas não podem ser ignora-
dos. Nosso estudo investigou tecnologias de
tratamento e recomendações de políticas
públicas para garantir que esses sistemas
sejam não apenas confiáveis, mas também
sustentáveis.
Onde a ciência se encontra com saúde e
comportamento
Uma das áreas que mais gosto é a interseção
entre saúde pública e ciência ambiental. Em
um estudo nos EAU sobre o descarte inade-
quado de medicamentos, revelamos uma
disparidade preocupante: apesar do conheci-
mento público, os níveis de descarte seguro
eram baixos. Muitos medicamentos estavam
sendo descartados no lixo doméstico, colo-
cando em risco tanto o meio ambiente quanto
as pessoas.
Resolver esse tipo de problema exige mais do
que conhecimento científico. É preciso com-
preender o comportamento humano, ter sen-
sibilidade cultural e adotar uma abordagem
sistêmica. Nossas propostas — incluindo cam-
panhas informativas e programas de coleta —
representaram uma resposta interdisciplinar e
inclusiva.
Essa
mesma
mentalidade
guiou
nosso
trabalho recente em uma estratégia nacional
para qualidade do ar em ambientes internos.
A má qualidade do ar interno não é um prob-
lema técnico — é uma emergência de saúde
pública. Ao integrar políticas públicas, partici-
pação de partes interessadas e informações
de saúde ambiental, desenvolvemos um
plano de ação transformador.
Transformando pesquisa em política
Para mim, a pesquisa é muito mais forte
quando ultrapassa os muros do laboratório e
encontra o mundo real. Isso orientou meu foco
em alinhar tecnologias da Indústria 4.0 com
esforços de combate à pobreza — utilizando
inteligência artificial e blockchain não como
inovações isoladas, mas como ferramentas
de equidade e impacto. Esse conceito, basea-
do no Objetivo de Desenvolvimento Sus-
tentável número 1, é mais um exemplo do que
ocorre quando os campos convergem com
base em valores.
Reconhecimento e responsabilidade
Sou grata pelos prêmios que recebi — incluin-
do o título de Cientista Credenciada concedi-
do pelo Conselho Científico e pela Instituição
de Ciências Ambientais. Como esses recon-
hecimentos derivam da natureza do meu
trabalho e não de fatores externos, não os
considero prêmios no sentido tradicional.
“
18
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
“Para mim, a pesquisa é
muito mais forte quando
ultrapassa os muros do
laboratório e encontra o
mundo real.”
Minhas funções consultivas — tanto internacio-
nais quanto locais — reforçaram uma verdade
essencial: política e ciência devem caminhar
juntas. Não basta saber. É preciso agir.
Reflexões e perspectivas futuras
Ao refletir sobre minha trajetória, percebo que
certos princípios sempre orientaram meu
trabalho e minha liderança. Acima de tudo,
descobri que a verdadeira inovação nasce da
cooperação — quando diferentes mentes e
disciplinas se cruzam, o resultado frequente-
mente supera a soma das partes. Igualmente
importante é o compromisso com a equidade.
A ciência deve servir a todos, especialmente os
tradicionalmente excluídos. Inclusão não é
apenas ética; é uma estratégia essencial para o
desenvolvimento sustentável. E por fim, a lider-
ança visionária tem um papel vital na criação
de espaços onde a curiosidade, o pensamento
crítico e o impacto florescem.
Na ADU, trabalho para criar um ambiente em
que alunos e professores sintam-se empodera-
dos para questionar, explorar com curiosidade
e inovar com propósito. Essas reflexões continu-
am influenciando não apenas minha forma de
liderar, mas também como imagino o futuro da
ciência ambiental — um futuro colaborativo,
equitativo e profundamente conectado com o
mundo em que vivemos.
Conclusão
A excelência na pesquisa hoje não se resume
à profundidade em uma área — ela exige am-
plitude, conexão e propósito. A ciência inter-
disciplinar é poderosa porque rompe barrei-
ras: entre disciplinas, entre prática e teoria, e,
por fim, entre as pessoas e o planeta que
todos compartilhamos.
Sob essa perspectiva, meu caminho não foi
apenas uma profissão, mas um verdadeiro
chamado — uma carreira definida pelo
trabalho em equipe, alimentada por mentes
curiosas e baseada na convicção de que
somos mais fortes juntos.
Vamos continuar construindo pontes. Nosso
futuro depende disso.
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Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro |
Do Satélite à Política:
FOCO REGIONAL
Como a Observação da Terra está impulsionando o
desenvolvimento sustentável em regiões áridas
Dr. Fares Howari
Diretor, Faculdade de Ciências Humanas e Ciências
Universidade de Ajman, Emirados Árabes Unidos (EAU)
Este artigo explora como a Observação da
Terra (OT) por satélite, combinada com IA e
colaboração
interdisciplinar,
está
revolucionando
o
desenvolvimento
sustentável em regiões áridas, oferecendo
soluções escaláveis para segurança hídrica,
restauração de terras e integração de
políticas. Satélites de OT, operando em
órbitas geoestacionárias e de baixa altitude
(variando de 160 a 36.000 quilômetros),
estão alterando fundamentalmente nossa
compreensão e governança dos ambientes
áridos globais. Esses sistemas tecnológicos
oferecem
capacidades
inéditas
para
monitorar
e
analisar
ecossistemas
desérticos que historicamente desafiaram
os métodos tradicionais de observação.
A integração de imagens multiespectrais e
radar de abertura sintética (SAR) fez com
que o monitoramento ambiental passasse
de avaliações visuais rudimentares para
análises
quantitativas
sofisticadas,
impactando significativamente as iniciativas
de gestão de recursos. A implementação
dessas
plataformas
de
observação
possibilita uma avaliação abrangente de
parâmetros
ambientais
críticos
em
ecossistemas
com
recursos
hídricos
limitados, facilitando a tomada de decisões
baseada em evidências em áreas como
alocação de recursos hídricos e otimização
da produtividade agrícola. Esses avanços
representam uma mudança de paradigma
na governança ambiental, movendo-se de
intervenções reativas para estratégias de
adaptação
proativas
que
aumentam
significativamente a resiliência climática
para instituições e populações vulneráveis
em regiões áridas.
| Ciências ambientais que salvam o mundo: perspectivas preparadas para o futuro
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